O Padrão que se Repete
No dia 25 de julho de 2026, um veículo avançou contra participantes da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ em Berlim. O saldo: um morto e dezenas de feridos. O ministro do Interior alemão classificou o evento como um ataque terrorista islâmico. Mas nem todos os atropelamentos em massa têm motivação religiosa ou política.
Em Mannheim, em março de 2025, um homem matou duas pessoas e feriu onze durante o Carnaval. As autoridades concluíram que o ataque foi motivado por transtornos mentais, não por extremismo. No mesmo ano, no Canadá, um SUV avançou contra um festival filipino matando onze pessoas — a hipótese de terrorismo foi descartada.
Na China, entre 2023 e 2024, uma série de atropelamentos foi descrita como "vingança contra a sociedade". Na Europa, os ataques de Nice (86 mortos em 2016), Londres, Barcelona e Berlim marcaram a história recente. O que há em comum entre esses eventos tão diversos?
Raiva, Imitação e o Efeito Meme
Em 2018, o sociólogo cultural Vincent Miller e o criminologista Keith Hayward publicaram um estudo que classificava os atropelamentos em massa como eventos "imitatórios". Mais do que ideologicamente motivados, eles funcionariam como memes — oferecendo um modelo a ser replicado.
"Quem faz isso está, em geral, bastante ressentido, há um sentimento de injustiça, de raiva", explica Miller. O que une os perpetradores não é a causa — que pode ser religiosa, política ou inexistente — mas o ato em si. O carro como arma está disponível para qualquer pessoa que dirija, e a cobertura midiática garante que o gesto será visto.
Pauline Paillé, especialista em segurança da RAND Europe, complementa: "É difícil entender se há um padrão de fato ou se é apenas uma coleção de eventos isolados. Depende muito das motivações e do objetivo político de cada um."
O Papel das Redes Sociais na Propagação
Um elemento central que a psicologia social aponta é o papel das redes sociais na amplificação desses atos. Diferentemente de outros crimes violentos, o atropelamento em massa é quase sempre filmado, compartilhado, comentado. O autor sabe que seu gesto será visto por milhões. Para indivíduos em estado de profundo ressentimento social, a promessa de notoriedade pode ser um combustível poderoso.
Esse fenômeno não é novo — atentados terroristas sempre buscaram audiência — mas a velocidade e o alcance das redes sociais tornaram o efeito imitativo muito mais potente. Um ataque em Berlim pode inspirar outro em Tóquio em questão de dias.
Como a Psicologia Explica a Mente do Perpetrador
Não há um perfil único. As pesquisas mostram que os motivos se dividem em três grandes grupos:
1. Radicalização ideológica. Autores que agem por motivação política, religiosa ou extremista. O carro é uma ferramenta de guerra assimétrica, incentivada inclusive por grupos como o Estado Islâmico.
2. Transtornos mentais graves. Indivíduos com psicoses, ideação paranoide ou episódios maníacos que, em estado de desorganização psíquica, cometem o ato. Nesses casos, não há planejamento sofisticado nem motivação ideológica clara.
3. Ressentimento social extremo. Pessoas que se sentem injustiçadas, excluídas ou humilhadas pela sociedade e buscam vingança ou visibilidade. A "vingança contra a sociedade" é a categoria mais frequente nos ataques chineses, e estudos ocidentais também a identificam.
Prevenção: Entre Barreiras e Saúde Mental
O relatório da RAND Europe para a Comissão Europeia explorou soluções: endurecer as exigências para aluguel de veículos, usar geofencing para limitar a velocidade de carros em áreas de pedestres e instalar barreiras físicas. Medidas que funcionam, mas não resolvem a raiz do problema.
Para a psicologia, a prevenção de longo prazo passa pela identificação precoce de indivíduos em sofrimento psíquico extremo — antes que a raiva se transforme em projeto de destruição. Passa também por reduzir o isolamento social, fortalecer redes de apoio e oferecer tratamento para transtornos mentais antes que eles atinjam o ponto de ruptura.
Como resume Pauline Paillé, "barreiras físicas podem desviar o ataque para outra área. A segurança nunca é absoluta." Talvez o mais importante seja construir uma sociedade onde menos pessoas queiram transformar a própria dor em arma.
Perguntas Frequentes
Combinam alta letalidade, baixa barreira técnica e enorme impacto simbólico. Estudos mostram que funcionam como "memes" — modelos que se replicam.
Não. As motivações variam: radicalização, transtorno mental, vingança pessoal ou desejo de notoriedade. O que une os perpetradores é o ato, não a causa.
Atropelamentos em massa funcionam como eventos imitativos — a cobertura midiática oferece um modelo a ser copiado por outros em situação de raiva ou desespero.
Barreiras físicas, geofencing e restrições para aluguel de carros ajudam, mas não eliminam o risco. A prevenção de longo prazo passa pela saúde mental e redução do isolamento social.
Ressentimento profundo e sensação de injustiça, quando não elaborados, podem levar a atos extremos. O tratamento precoce do sofrimento psíquico é a melhor prevenção.
