O número assusta — e precisa ser lido com cuidado
À primeira vista, 5.226 registros parece indicar uma explosão repentina de violência entre estudantes. A análise, porém, pede nuance — e é isso que torna a psicologia tão necessária aqui.
Os dois crimes só passaram a existir formalmente no Código Penal em 2024, com a Lei 14.811/2024. Antes, muitos casos eram registrados como ameaça, injúria ou lesão, ou sequer chegavam ao sistema. Com a tipificação, famílias e escolas passaram a nomear e denunciar melhor.
Como explica Benjamim Horta, fundador do Programa Escola Sem Bullying (que atua desde 2012): "É importante sermos cuidadosos na análise desses dados, para que não atribuirmos esse número somente ao aumento do comportamento do bullying em si, mas ao impacto que a aprovação da lei tem na nossa sociedade."
Em outras palavras, parte do aumento de 65% é melhoria de registro. Outra parte, porém, revela que a violência entre crianças e adolescentes continua sendo um desafio cotidiano para quem educa e cuida — e não pode ser tratada apenas como estatística.
Por que entre 10 e 17 anos dói mais
Embora o bullying possa ocorrer em qualquer idade, o Anuário mostra concentração gritante: 48% das vítimas tinham 10 a 13 anos e 45% tinham 14 a 17. Quase todas as vítimas são crianças e adolescentes.
Não é coincidência. É neurodesenvolvimento e psicologia social:
1. Identidade em construção
A necessidade de pertencimento ao grupo, o medo da rejeição e a busca por aceitação tornam qualquer diferença — corpo, sotaque, jeito de falar, gostos, condição social — potencial motivo de exclusão. Ser diferente, nessa fase, pode ser vivido como ameaça ao vínculo.
2. Habilidades ainda em formação
Empatia, controle emocional e resolução de conflitos estão em desenvolvimento. O córtex pré-frontal, que ajuda a frear impulsos e avaliar consequências, só amadurece por volta dos 25 anos. Quando essas competências não são estimuladas, a agressão pode se consolidar como forma de conquistar status ou exercer poder sobre quem é percebido como mais vulnerável.
3. Vulnerabilidades específicas por faixa etária
Para Glicia Brazil, psicóloga e vice-presidente da Comissão da Infância e Juventude do IBDFAM, há nuances: "Esses pré-adolescentes de 10 a 13 anos tendem a se expor mais, compartilhar mais conteúdo sem filtro e cair com mais facilidade em armadilhas e provocações tendo em vista o próprio grau de maturidade." Já entre 14 e 17 anos, "a puberdade traz transformações físicas muito aceleradas e muitos não estão adequados aos padrões que as redes sociais impõem. Essas pessoas acabam ficando mais inseguras, com baixa autoestima e mais vulneráveis."
| Bullying (presencial) | Cyberbullying (virtual) |
|---|---|
| Intimidação sistemática repetida: física, verbal, psicológica ou social | Ofensas, montagens, fotos sem consentimento, perfis falsos, campanhas de humilhação |
| Ocorre em escola, mas também fora dela; relação desigual de poder | Acontece em apps e redes; alcance exponencial |
| Tem horário e local mais delimitados | Não tem horário para começar ou terminar — é permanente |
| Vítima pode se afastar fisicamente | Conteúdo continua circulando mesmo após conflito original |
| Testemunhas presenciais limitadas | Aparente anonimato reduz percepção de responsabilidade do agressor |
Como as redes transformaram a dinâmica da violência
Amizades, conflitos e disputas por reconhecimento hoje acontecem simultaneamente no pátio e no feed. As plataformas potencializam o bullying por três razões que a psicologia das mídias já mapeou:
- Velocidade e alcance: um vídeo editado ou um boato pode atingir centenas em minutos;
- Anonimato percebido: a distância da tela diminui empatia e aumenta desinibição;
- Algoritmos: conteúdos que despertam reações emocionais intensas — incluindo exposições — circulam mais, retroalimentando a humilhação.
O resultado é uma violência que não dorme. Comentários ofensivos, vídeos e imagens manipuladas seguem disponíveis, prolongando o sofrimento e dificultando a recuperação emocional. A vítima não tem onde se esconder — nem quando desliga o celular, porque sabe que a exposição continua.
O erro mais comum: achar que uma palestra resolve
Um dos alertas mais importantes da reportagem da Terra/DW vem de Benjamim Horta: "Um dos principais problemas relacionados à prevenção ao bullying e ao cyberbullying no Brasil é a falta de uma sistematização do trabalho preventivo. Escolas tentam sanar um problema complexo, muitas vezes de forma simplista, com uma ação isolada, como por exemplo, uma palestra ou uma roda de conversa, e isso acaba não surtindo o efeito desejado. E mais, isso frustra os estudantes e a comunidade de pais."
Prevenção não é evento. É cultura. E cultura se constrói com continuidade, protocolos e acompanhamento — não com campanha pontual no mês de combate ao bullying.
O que realmente muda o cenário — segundo especialistas
1. Programa estruturado e documentado
Para Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita, advogada, socióloga e presidente da SOS Bullying, a escola precisa ter "um programa de combate ao bullying estruturado e documentado. Ter um canal de denúncia auditável onde possam ser feitas denúncias anônimas para que essa vítima tenha coragem de denunciar. Também tem que ter protocolos antibullying com prazos bem determinados para ouvir a vítima, o agressor e finalizar o caso. Tudo precisa estar documentado."
Isso inclui plano individual de proteção da vítima, com sigilo da denúncia e prevenção de retaliações — sem isso, denunciar vira novo risco.
2. Formação continuada de toda a equipe
Professores, coordenadores, inspetores e funcionários precisam aprender a reconhecer sinais sutis de intimidação, exclusão social e sofrimento emocional. Muitas vezes, o bullying não é grito no corredor — é o silêncio no recreio, a troca de lugar que isola, o grupo de WhatsApp paralelo.
3. Cuidar de quem sofre e de quem agride
Acompanhamento psicológico para vítima é consensual. Menos óbvio — e tão necessário — é o cuidado com o autor. Como lembra Glicia Brazil: "Outra coisa importante é atender o autor da conduta, sem rotulá-lo permanentemente como agressor, porque isso também cria um estigma, fazendo com que ele se torne uma pessoa segregada. Quem pratica bullying não percebe o quanto isso gera dor no outro e essa empatia precisa ser trabalhada no agressor. Tem que ser uma ação conjunta de tratar a vítima e o agressor."
Em muitos casos, o comportamento agressivo está associado a problemas familiares, emocionais ou sociais não elaborados. Punir sem cuidar apenas desloca a violência.
4. Famílias como parceiras — não como plateia
Famílias precisam ser orientadas a identificar mudanças de comportamento e manter diálogo constante, sem interrogatório. Perguntas que abrem conversa funcionam melhor que "sofreu bullying hoje?": "Com quem você ficou no intervalo?", "Teve algum momento chato no grupo da sala?", "Como seu corpo se sentiu depois daquele comentário?"
5. Educação digital desde cedo
Uso responsável de redes, privacidade, consentimento para compartilhar fotos, consequências legais da agressão virtual e letramento sobre algoritmos precisam entrar no currículo — com linguagem adequada à idade, não como sermão.
6. Políticas públicas integradas
Ampliar presença de psicólogos e assistentes sociais nas escolas, monitorar indicadores de violência escolar, financiar programas de prevenção e avaliar resultados de forma contínua, em articulação entre educação, saúde, assistência social, segurança pública e Justiça. Sem isso, cada escola inventa a roda sozinha — e se esgota.
| Medida que NÃO sustenta | Medida que SUSTENTA prevenção |
|---|---|
| Palestra anual isolada | Programa contínuo, documentado e avaliado |
| Canal de denúncia sem sigilo ou sem prazo | Canal anônimo, auditável, com prazos para ouvir vítima e autor |
| Punição exclusiva e estigmatizante | Responsabilização com restauração e desenvolvimento de empatia |
| Apoio só para a vítima | Apoio psicológico para vítima e autor, com plano de proteção |
| Família só chamada quando há crise | Família orientada e envolvida no cotidiano, com diálogo aberto |
Como perceber que a criança ou adolescente está sofrendo
"O principal sinal de que uma criança ou adolescente está sendo vítima é a mudança de comportamento", alerta Horta. Fique atenta a:
- Tristeza persistente, irritabilidade, sintomas ansiosos ou depressivos;
- Resistência para ir à aula, faltas frequentes, queda inexplicável no rendimento;
- Evitar atividades com colegas, isolar-se no recreio ou no digital;
- Hematomas, ferimentos sem explicação ou material danificado;
- Uso ansioso do celular, apagar redes de repente, medo de notificações, vergonha excessiva.
Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. O que importa é a mudança sustentada e o contexto. Ao notar, converse com calma, sem minimizar ("é brincadeira") nem catastrofizar. Valide: "Deve ter sido doloroso passar por isso. Obrigada por me contar. Vamos pensar juntos em como te proteger."
Para quem agride: responsabilizar sem cristalizar identidade
Rotular permanentemente "agressor" cria estigma e profecia autorrealizável. A psicologia do desenvolvimento prefere falar em "autor da conduta" — alguém que fez algo grave, precisa ser responsabilizado, reparar o dano e aprender outras formas de pertencer e lidar com frustração.
Isso não é passar pano. É entender que empatia se aprende. Exercícios de tomada de perspectiva ("como você acha que ela se sentiu quando a foto circulou?"), reparação concreta e acompanhamento familiar são mais transformadores que humilhação pública.
Perguntas Frequentes
Foram 5.226 casos (4.549 bullying e 677 cyberbullying) contra 3.188 em 2024. O aumento reflete a Lei 14.811/2024 que tipificou o crime, mais denúncias de famílias e escolas e a mediação digital crescente. Parte é melhoria de registro, parte é violência que persiste e precisa de resposta estrutural.
48% das vítimas têm 10-13 e 45% têm 14-17. Pré-adolescentes se expõem mais e têm menor maturidade para filtrar provocações. Adolescentes vivem transformações físicas e pressão de padrões das redes, com mais insegurança e vulnerabilidade.
Bullying é intimidação sistemática repetida para humilhar, constranger e excluir, com desigualdade de poder. Cyberbullying leva isso ao virtual com alcance massivo, anonimato percebido e permanência — a violência não tem horário para acabar e continua mesmo após o conflito original.
Mudança de comportamento sustentada: tristeza, evitar escola, queda de notas, isolamento, hematomas ou material estragado, uso ansioso do celular. Converse sem julgamento, valide a dor e busque a escola com pedido de proteção, não apenas punição.
Programa contínuo e documentado, canal anônimo auditável com prazos, plano de proteção da vítima, formação de professores, apoio psicológico para vítima e autor, educação digital e parceria com famílias e rede pública. Palestra isolada frustra e não sustenta mudança.
Considerações Finais: Entre punir e restaurar, precisamos cuidar
O dado de 5.226 casos não pede pânico — pede responsabilidade. Ele nos lembra que crianças e adolescentes estão tentando pertencer em um mundo onde o pertencimento é medido em curtidas, onde a diferença vira alvo rápido e onde a dor, uma vez online, não se apaga com um pedido de desculpas.
Mudar esse cenário exige sair do simplismo. Uma palestra no auditório não desfaz meses de exclusão na sala. Um print apagado não apaga a memória do constrangimento. O que transforma é o cotidiano: professor que percebe o silêncio, escola que tem protocolo e cumpre prazos, família que escuta sem interrogar, rede que oferece psicólogo onde antes havia apenas advertência.
E exige também lembrar que quem agride também é criança ou adolescente em formação — que precisa de limite claro, reparação e aprendizado de empatia, não de um rótulo que o acompanhe para sempre. Como disse Benjamim Horta, precisamos de equilíbrio entre o que é passível de punição e o que é passível de restauração.
Se você é mãe, pai, educador ou adolescente que se reconheceu neste texto — seja como quem sofre, como quem testemunhou ou como quem já fez sofrer —, saiba: há caminhos de cuidado que não passam por silêncio nem por vingança. Passam por conversa segura, proteção e acompanhamento.
Estou aqui para isso.