A Cena que Ninguém Vê
A televisão está ligada. O som do estádio invade a sala. Tem gente comemorando gols, gritando, abraçando. Mas no sofá, do outro lado da sala, uma mulher não está assistindo ao jogo. Ela está prestando atenção ao homem ao lado dela. Ao tom de voz dele. À quantidade de cerveja que bebeu. Ao silêncio que pode, a qualquer momento, virar gritos.
Essa cena não aparece nos noticiários esportivos. Mas aparece, com regularidade, nos boletins de ocorrência. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Instituto Natura, em dias de partida os registros de ameaça contra mulheres aumentam 23,7%, enquanto as agressões físicas crescem 20,8%. O agressor, na maioria dos casos, é o companheiro ou ex-companheiro.
O Futebol Não Agride, Mas Amplifica
O futebol em si não é o problema. Mas ele reúne, em uma única noite, todos os ingredientes que amplificam comportamentos violentos: álcool em excesso, emoções à flor da pele, grupos de amigos que reforçam padrões machistas, e uma cultura que ainda associa masculinidade ao domínio e ao controle.
E se um único jogo já aumenta o risco, imagine uma Copa inteira. Grandes competições transformam semanas inteiras em sucessivos dias de excesso. Para muitas mulheres, isso significa não uma festa — mas um período de alerta permanente.
O Padrão Que a Ciência Documentou
Pesquisadores da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, analisaram os efeitos das Copas de 2002, 2006 e 2010 e encontraram algo que deveria nos incomodar profundamente:
| O Que Acontece na Partida | O Que Acontece em Casa |
|---|---|
| Vitória da seleção inglesa | 26% mais violência doméstica |
| Derrota da seleção inglesa | 38% mais violência doméstica |
| Dia seguinte ao jogo | 11% acima do normal — mesmo sem jogo |
Percebe o padrão? Tanto faz quem ganha. A vitória é comemorada com violência. A derrota é vingada com violência. No dia seguinte, independente do placar, as mulheres continuam pagando o preço. É como se o jogo deixasse um rastro — e esse rastro se chama medo.
O Dado Que Dói
Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios — o maior número desde que o crime foi tipificado em lei, em 2015. Oito em cada dez vítimas foram assassinadas pelo companheiro ou ex-companheiro. E a maioria morreu dentro de casa.
Dentro de casa. No lugar que deveria ser o mais seguro. E durante a Copa, com a televisão ligada, a geladeira cheia de cerveja e um homem que ela provavelmente ama — ou já amou — sentado no sofá, esse risco se multiplica de uma forma que não dá para ignorar.
O Que Acontece no Cérebro de Uma Mulher em Alerta
Do ponto de vista da neuropsicologia, o que essas mulheres vivem tem um nome: hipervigilância. É quando o cérebro permanece em estado de alerta constante, processando ameaças mesmo quando o perigo não está imediatamente presente.
A amígdala cerebral — aquela estrutura que detecta ameaças e gera respostas de medo — fica hiperativa. Ela assume o comando. Enquanto isso, o córtex pré-frontal — responsável pelo planejamento, pela reflexão, pelas decisões mais complexas — perde força. A pessoa passa a sentir antes de pensar.
Na prática, isso se traduz em estratégias de sobrevivência que parecem "normais" mas que são, na verdade, sintomas de um cérebro em modo de defesa: evitar certos assuntos, manter o ambiente calmo a qualquer custo, "andar na ponta dos pés", monitorar cada gesto e palavra do parceiro. A mulher deixa de viver e passa a gerenciar o perigo.
E quando esse estado se prolonga — durante semanas de Copa, durante anos de casamento — ele pode evoluir para quadros de estresse pós-traumático: sono afetado, dificuldade de concentração, irritabilidade, dores crônicas sem causa física, isolamento social.
O Custo Que Ninguém Calcula
A violência doméstica não é apenas um problema de segurança pública. É um problema de saúde coletiva — e econômico. A Organização Mundial da Saúde estima que pode custar até 14% do PIB em países de baixa renda. No Brasil, estudos apontam perdas que chegam a cerca de 10%, entre hospitalizações, afastamentos, processos judiciais e redução de produtividade.
Mas o custo que não entra na planilha é o humano: vidas interrompidas, crianças que crescem em lares de medo, mulheres que perdem a capacidade de confiar em si mesmas. A pesquisa da American Economic Review mostra que a violência está ligada a quedas salariais de até 5,1% e a redução de 6,6% na participação das mulheres no mercado de trabalho. A agressão compromete a autonomia econômica, e a dependência financeira dificulta o rompimento de relações abusivas. É um ciclo que se retroalimenta — e que a psicologia conhece bem.
A Rede Existe — Mas Muitas Não Chegam Até Ela
O Ligue 180 funciona 24 horas por dia. Existem Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Casas da Mulher Brasileira, Salas Lilás e Centros de Referência. A rede é ampla.
Mas o maior obstáculo não é a falta de recurso — é a barreira psicológica. Muitas mulheres não chegam até esses canais porque a vergonha é maior que o medo. Porque dependem economicamente do agressor. Porque acreditaram, durante tanto tempo, que o problema era delas. Porque o cérebro em modo de sobrevivência prioriza sobreviver — não denunciar.
Na psicoterapia, trabalhamos justamente para interromper esse ciclo. Para que a mulher reconheça que o que ela vive não é "normal". Que ela não está "exagerando". Que o medo que sente é uma resposta neurológica legítima a uma situação de perigo real — e que ela merece ajuda.
Se você se identificou com o que leu
A psicoterapia oferece um espaço seguro para processar o que você vive, reconstruir sua autoestima e desenvolver estratégias de proteção. Você não precisa esperar o jogo acabar para cuidar de si mesma. Estou aqui para isso.
Conversar via WhatsAppPerguntas Frequentes
Sim. Pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em dias de partida, os registros de ameaça contra mulheres aumentam 23,7% e as agressões físicas crescem 20,8%. O futebol funciona como amplificador de comportamentos já existentes.
Dias de jogo reúnem ingredientes que amplificam comportamentos violentos: consumo excessivo de álcool, emoções à flor da pele, grupos de amigos que reforçam padrões machistas e uma cultura que associa masculinidade ao domínio e controle. Vitória é comemorada com violência e derrota é vingada com violência.
Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios — o maior número desde a tipificação do crime em 2015. 8 em cada 10 vítimas foram assassinadas pelo companheiro ou ex-companheiro e a maioria morreu dentro da própria casa.
O Ligue 180 funciona 24 horas por dia para orientação e denúncias. Além dele, existem as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), as Casas da Mulher Brasileira, as Salas Lilás e os Centros de Referência da Mulher.
Sim. Pesquisas da Universidade de Lancaster mostram que, em Copas anteriores, a violência doméstica aumentava 26% quando a seleção inglesa vencia e 38% quando perdia. Grandes competições transformam semanas inteiras em sucessivos dias de excesso, aumentando a vulnerabilidade das mulheres.