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Farmar aura, six seven, gag: como a nova linguagem dos jovens afeta suas relações

TL;DR "Farmar aura", "six seven", "gag", "delulu", "rizz" — se você ouve essas expressões e não entende nada, não está sozinho. As gerações Z e Alpha criaram um código linguístico próprio, que nasce nas redes sociais e se espalha em velocidade recorde. Mais do que um fenômeno de vocabulário, essa nova forma de comunicação revela como os jovens constroem identidade, pertencimento e reputação no mundo digital — e os impactos disso na saúde mental e nas relações são profundos.

O novo vocabulário que ninguém pediu — e todos usam

"Eu fiquei gag, porque old que não dava pra tankar um shade assim." Se você leu essa frase e sentiu que está diante de um idioma estrangeiro, você não está sozinho. A cada semana, novas palavras e expressões surgem nas redes sociais e, com a mesma velocidade, se espalham entre milhões de jovens brasileiros.

Em 2026, expressões como "farmar aura", "six seven", "gag", "delulu", "rizz" e "tankar" dominam as conversas no TikTok, Instagram, X (antigo Twitter) e até nas salas de aula. O que parece um amontoado de palavras aleatórias é, na verdade, um sistema de comunicação sofisticado — e compreendê-lo é essencial para quem convive com adolescentes.

"Entender aquele meme é ser parte de algo. Fazendo parte, a gente consegue se sentir socialmente aceito."
— Felipe Ventura Botomé, psicólogo

O significado por trás das palavras

A maioria dessas expressões não nasce do acaso. Elas vêm de universos específicos — games, cultura drag, basquete, memes — e são adaptadas pelos jovens como códigos de pertencimento. Veja as principais:

Expressão Origem Significado Exemplo
Farmar aura Games (farmar recursos) + espiritualidade (aura) Acumular pontos de carisma, construir reputação admirável "Chegou de moto na escola. Farmou aura."
Six seven (6-7) Música "Doot Doot" (Skrilla) + altura de LaMelo Ball (6'7") Não tem significado fixo. É piada interna, humor nonsense Ver o número 67 em qualquer lugar e gritar "six seven"
Gag / Gag de la gag Cultura drag (RuPaul's Drag Race) Algo tão chocante ou impressionante que deixa sem reação "Quando ela apareceu com aquela roupa, todo mundo ficou gag."
Delulu Inglês "delusional" Iludido, que cria fantasias irreais "Ele acha que vai namorar a cantora? Tá delulu."
Rizz Charisma (carisma) Habilidade de conquistar, charm "Ele tem rizz, conversa com todo mundo."
Flopar / Flopou Inglês "flop" Fracassar, não alcançar o sucesso esperado "A festa flopou, só vieram três pessoas."
Tankar Games (tanque = absorver dano) Suportar, aguentar uma situação difícil "Não vou tankar essa semana de provas."

O que a psicologia diz sobre esse fenômeno

Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento, a criação de uma linguagem própria pelos jovens não é novidade. Toda geração cria suas gírias, seus códigos, suas formas de se diferenciar do mundo adulto. O que mudou foi a velocidade de difusão e a natureza do vínculo que essas expressões criam.

Antes das redes sociais, uma gíria levava meses ou anos para se espalhar de uma cidade para outra. Hoje, um vídeo no TikTok pode criar uma expressão que em 24 horas já é conhecida por milhões de adolescentes em todo o Brasil. Esse ritmo acelerado tem consequências psicológicas importantes.

Pertencimento e exclusão

As gírias funcionam como um passaporte social. Entender e usar as expressões corretas demonstra que o jovem pertence àquele grupo, compartilha daquelas referências, está "por dentro". Quem não entende fica de fora — e isso inclui não apenas adultos, mas também outros jovens que não acompanham o ritmo das trends.

Esse mecanismo de inclusão/exclusão é rápido e implacável. Uma criança que não sabe o que é "farmar aura" pode se sentir deslocada no intervalo da escola. O medo de ficar de fora — o conhecido FOMO (Fear Of Missing Out) — é um dos motores emocionais que mantém os jovens permanentemente conectados, consumindo conteúdo para não perder a próxima expressão, o próximo meme, a próxima trend.

Gamificação da vida social

"Farmar aura" é, talvez, o exemplo mais fascinante desse fenômeno. A expressão transfere a lógica dos jogos eletrônicos para a vida real: assim como em um RPG, onde você repete ações para acumular pontos de experiência, na vida social você acumula "aura" — pontos simbólicos de carisma, respeito e admiração.

O problema é que, diferente de um jogo, a vida real não tem uma barra de progresso visível. O jovem fica em um estado constante de auto-observação, calculando como está sendo percebido, se suas ações estão "farmando aura" ou "perdendo aura". Isso gera ansiedade social, comparação constante e uma busca muitas vezes exaustiva por validação externa.

"O ambiente online exige que o jovem performe o tempo todo. Farmar aura é a gamificação da reputação — e isso pode ser emocionalmente desgastante."
— Ticiana Paiva, psicóloga

O humor como cola social

Por outro lado, expressões como "six seven" mostram o lado positivo dessa nova linguagem. O "six seven" não significa nada — e essa é justamente a graça. É uma piada interna coletiva, um código compartilhado que fortalece laços pelo simples prazer de pertencer a algo. Para a geração Alpha, que cresceu em um mundo hiperconectado, o humor absurdo e o nonsense são formas de criar conexão em meio ao caos informacional.

Psicólogos apontam que esse tipo de humor compartilhado tem função social importante: reduz o estresse, fortalece vínculos e cria um senso de identidade coletiva. O problema surge quando o código se torna tão restrito que passa a funcionar como barreira, isolando quem não consegue acompanhar.

O distanciamento geracional

Um dos efeitos mais visíveis desse fenômeno é o distanciamento entre jovens e adultos. Pais e professores que não entendem as gírias perdem não apenas o fio da conversa, mas também sinais emocionais importantes.

Quando um adolescente diz que "flopou" na prova, ele está expressando frustração. Quando diz que alguém é "delulu", está fazendo um julgamento social. Quando diz que "não vai tankar" a semana, está pedindo ajuda — mesmo que indiretamente. O adulto que não conhece essas expressões simplesmente não capta esses sinais.

Uma pesquisa do Instituto Nexus/FSB divulgada em abril de 2026 mostrou que as gírias "gag" e "flopar" lideram com folga as menções nas redes sociais — 28,4 mil e 26,8 mil posts respectivamente em apenas três meses. O X (ex-Twitter) concentra 90% dessas conversas, funcionando como um verdadeiro laboratório da linguagem jovem.

O que fazer como pai, mãe ou educador

A psicóloga Ticiana Paiva, ouvida pelo Metrópoles em maio de 2026, dá uma orientação clara: adultos não precisam dominar todas as trends ou falar igual aos jovens, mas precisam demonstrar curiosidade genuína pelo universo deles.

A linguagem como termômetro emocional

Mais do que "modinhas passageiras", as gírias juvenis funcionam como um termômetro cultural e emocional. Elas revelam o que os jovens estão consumindo, como estão se sentindo, o que valorizam e do que têm medo.

"Farmar aura" fala sobre a pressão por performar uma imagem idealizada. "Delulu" fala sobre a linha tênue entre sonhar e se iludir em um mundo de comparação constante. "Tankar" fala sobre a exaustão de suportar cargas emocionais cada vez mais pesadas. "Gag" fala sobre a busca por experiências cada vez mais intensas em um mundo que dessensibiliza rápido.

Para o profissional de saúde mental, entender esse vocabulário não é futilidade — é ferramenta de trabalho. Na clínica com adolescentes, saber o que significa "farmar aura" pode ser a diferença entre uma sessão superficial e uma conexão terapêutica genuína.

"A gíria adolescente deixa de ser barreira e passa a ser entendida como parte do processo de crescimento, de construção de laços e de aprendizagem compartilhada."
— Daniely Cardoso, Correio Braziliense

Perguntas Frequentes

O que significa "farmar aura"?

"Farmar" vem dos games (repetir ações para acumular recursos) e "aura" é o carisma, a presença. Farmar aura significa construir uma imagem admirável, acumular pontos simbólicos de respeito e estilo. É a gamificação da reputação social.

"Six seven" tem algum significado?

Não — e essa é a graça. O "six seven" (ou 6-7) é um meme nonsense, uma piada interna coletiva da geração Alpha. Surgiu da música "Doot Doot" do rapper Skrilla e da altura do jogador LaMelo Ball (6'7"). Funciona como um código de pertencimento: quem entende a piada faz parte do grupo.

Essas gírias são motivo de preocupação?

As gírias em si não são preocupantes — toda geração cria sua própria linguagem. O que merece atenção é o que elas revelam: a pressão por performance social, o medo de exclusão, a ansiedade gerada pela comparação constante. O sinal de alerta não é a palavra, mas o sofrimento que pode estar por trás dela.

Como posso me aproximar do universo do meu filho adolescente?

Demonstre curiosidade genuína em vez de julgamento. Pergunte o que as expressões significam, mostre interesse pelos conteúdos que ele consome, evite ridicularizar. Não precisa falar igual a ele — precisa mostrar que se importa com o mundo dele.

A terapia pode ajudar adolescentes que sofrem com a pressão das redes sociais?

Sim. A psicoterapia, especialmente a TCC, pode ajudar o adolescente a desenvolver autorregulação emocional, reduzir a necessidade de validação externa, construir uma autoestima mais sólida e aprender a usar a tecnologia de forma mais consciente e saudável.

Essas gírias estão atrapalhando o português dos jovens?

Não. Pesquisas em educação linguística mostram que o contato com gírias não impede o domínio da norma culta. Jovens que usam "farmar aura" no WhatsApp são perfeitamente capazes de escrever uma redação formal — desde que a escola ensine a diferenciar os contextos de uso.

Conclusão: O que esse novo vocabulário nos ensina

A linguagem dos jovens de 2026 não é um amontoado de palavras sem sentido — é a expressão de uma geração que cresceu em um mundo onde a reputação se mede em pontos, o pertencimento se conquista em memes e o medo de ficar de fora move comportamentos.

Para pais, educadores e profissionais de saúde, o caminho não é tentar dominar todas as gírias — isso é impossível, dada a velocidade com que elas mudam. O caminho é manter a escuta aberta, a curiosidade genuína e o acolhimento incondicional.

Quando um adolescente diz que algo "flopou", ele pode estar falando sobre frustração. Quando diz que precisa "tankar", pode estar pedindo ajuda. Quando diz que alguém "farmou aura", pode estar revelando o que ele próprio admira e deseja ser.

A gíria é a ponta do iceberg. O que importa é o que está embaixo — as emoções, as angústias, os desejos e as necessidades que os jovens expressam, mesmo sem saber, em cada nova palavra que inventam.

Dra. Caroline

Dra. Caroline Campos Verde

CRP 06/201517

Especialista em TCC e Neuropsicologia. Atendimento acolhedor para crianças, adolescentes e adultos. Trabalha com regulação emocional, ansiedade, desenvolvimento infantil e relações familiares.

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