O Fantasma na Máquina
Em 13 de julho de 2026, o ator Sam Neill faleceu. Horas depois, as redes sociais já estavam repletas de imagens criadas por inteligência artificial: Sam Neill como um fantasma entre dinossauros, Sam Neill chegando aos portões do Jurassic Park em meio a nuvens. As imagens eram bem-intencionadas — homenagens de fãs — mas levantaram uma questão incômoda: quem tem o direito de decidir como uma pessoa falecida será representada?
O fenômeno tem nome: necromancia digital. A palavra "necromancia" remete à prática ancestral de invocar os mortos; a versão digital descreve o ato de usar IA para manipular vozes, imagens e traços de personalidade de pessoas falecidas. E o que antes exigia conhecimento técnico avançado hoje está ao alcance de qualquer pessoa com um smartphone.
O Luto na Era Digital
Para a psicologia, a necromancia digital toca em um dos processos mais sensíveis da experiência humana: o luto. O luto não é uma doença — é um processo natural de adaptação à perda. Ele tem estágios reconhecidos (negação, raiva, barganha, depressão, aceitação) e cada pessoa vive esse processo no seu tempo.
O problema da "tecnologia do luto" — ou "grief tech" — é que ela pode interferir nesse processo de maneiras imprevisíveis. Como explica Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath, "o luto não é uma patologia, mas uma parte fundamental da experiência humana. A ideia de 'resolver' experiências humanas como o luto mostra a extensão em que ele está sendo plataformizado."
Os chamados "grief bots" — avatares de IA criados a partir de mensagens, áudios e vídeos de uma pessoa falecida — oferecem a possibilidade de "conversar" com quem partiu. Para alguns, isso pode trazer conforto temporário. Para outros, pode se tornar uma armadilha emocional que prolonga indefinidamente o estágio de negação.
Os Riscos Psicológicos
A criação de avatares de pessoas falecidas envolve pelo menos três riscos psicológicos significativos:
1. Prolongamento do luto patológico. Quando o enlutado pode "conversar" com uma versão artificial do ente querido, o cérebro recebe sinais contraditórios. A pessoa sabe que o outro morreu, mas a interação com o avatar cria uma ilusão de presença que pode dificultar a aceitação real da perda.
2. Distorção da memória. Os avatares de IA são construídos a partir de dados limitados — mensagens de texto, fotos, áudios. Eles não capturam a complexidade de uma pessoa real. Com o tempo, a memória do falecido pode ser substituída pela versão artificial, empobrecendo a lembrança autêntica.
3. Exploração emocional. Como alerta Kasket, "o que uma pessoa experimenta como algo bem-vindo ou útil pode ser inútil ou até traumático para outra." Empresas de "grief tech" lucram com a vulnerabilidade de quem está de luto, vendendo a promessa de um alívio que pode nunca chegar.
| Luto Natural | Luto com Intervenção Digital |
|---|---|
| Aceitação gradual da perda | Ilusão de presença contínua |
| A memória evolui com o tempo | Memória "congelada" pela réplica artificial |
| O enlutado segue em frente | Risco de paralisação emocional |
| O vazio é elaborado internamente | O vazio é "preenchido" artificialmente |
| Não há exploração comercial | Mercado do luto explora a vulnerabilidade |
O Caso Elis Regina e o Precedente Brasileiro
No Brasil, o caso mais emblemático ocorreu em 2023, quando a Volkswagen usou IA para criar um dueto entre a cantora Elis Regina, morta há 44 anos, e sua filha Maria Rita. A campanha gerou reações divididas: alguns aplaudiram a emoção do encontro virtual; outros questionaram se Elis teria consentido com o uso de sua imagem.
O Conar chegou a abrir investigação, e um projeto de lei do senador Rodrigo Cunha propunha diretrizes para o uso de IA na recriação de pessoas falecidas. Ambos foram arquivados. A regulamentação, como alerta Kasket, não avança com rapidez suficiente.
A filha de Pelé, Flávia Christina, também se manifestou contra vídeos de IA com o pai: "não são atitudes normais dele". A fala toca num ponto central: a pessoa falecida não pode mais consentir ou se defender. Sua imagem pode ser usada para dizer ou fazer coisas que nunca faria.
O Que a Psicologia Recomenda
Diante da necromancia digital, a psicologia não tem uma resposta única — porque o luto é uma experiência profundamente individual. Mas alguns princípios podem orientar a reflexão:
- O luto precisa de tempo e espaço. Não existe atalho tecnológico para elaborar uma perda. Acolher a dor é parte do processo.
- Memórias autênticas são insubstituíveis. Por mais sofisticado que seja um avatar, ele não é a pessoa que se foi. Substituir a memória real por uma simulação pode empobrecer o vínculo.
- A tecnologia deve servir à pessoa, não o contrário. Se um grief bot traz conforto genuíno e temporário, ótimo. Mas se ele impede o enlutado de seguir, é um problema.
- Busque apoio profissional. O luto complicado — aquele que não avança, que paralisa — deve ser acompanhado por psicólogo. A tecnologia não substitui o acolhimento humano.
Perguntas Frequentes
É o uso de IA para recriar vozes, imagens e personalidades de falecidos. Qualquer pessoa pode criar avatares a partir de mensagens, áudios e vídeos.
Depende. Pode trazer conforto temporário para alguns, mas para outros pode prolongar o luto patológico, impedindo a aceitação da perda.
A regulamentação ainda é incipiente. Especialistas defendem que os direitos da personalidade devem se estender após a morte para limitar o uso não consensual.
São avatares de IA criados a partir dos dados digitais de uma pessoa falecida. Empresas de "grief tech" oferecem esse serviço, gerando debate ético.
Sim, especialmente em casos de luto complicado. A psicoterapia oferece acolhimento e ferramentas para elaborar a perda sem atalhos artificiais.
Considerações Finais
A necromancia digital é um fenômeno fascinante e perturbador. Ela nos confronta com perguntas que a tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade de respondê-las: quem tem direito sobre a imagem de quem morreu? O luto pode (ou deve) ser "resolvido" por um aplicativo? Até que ponto a tecnologia nos aproxima de quem amamos — e até que ponto nos afasta da realidade da perda?
Para além dos debates éticos e legais, fica um lembrete: o luto não é um problema a ser corrigido. É um testemunho de que amamos. E o amor, em sua forma mais autêntica, não precisa de algoritmos para continuar existindo.