Pedro tinha 34 anos quando abriu a própria empresa. Era o sonho da vida: ser dono do próprio negócio, construir algo com as próprias mãos, deixar um legado. Três anos depois, ele mal dormia, tinha crises de ansiedade antes de cada reunião importante e se sentia um impostor — mesmo com a empresa crescendo. Quando finalmente buscou ajuda, a primeira pergunta que fez foi: "Isso é normal? Todo empreendedor se sente assim?"
A resposta, hoje, está documentada. E os números são alarmantes.
O estudo que revela o custo invisível do empreendedorismo
Uma pesquisa publicada no artigo científico "Psicanálise Winnicottiana como pilar da jornada empreendedora: saúde mental do empreendedor como condição estrutural tanto para a sustentabilidade do negócio, quanto do ser", desenvolvido pela pesquisadora e psicanalista Deusa Marcon, escancara o que muitos empreendedores vivem em silêncio.
O estudo combina evidências empíricas acumuladas ao longo de 15 anos de atuação direta com empreendedores com uma pesquisa qualitativa realizada em 2025, analisada sob a ótica da psicanálise winnicottiana. Os dados foram publicados no Valor Econômico e revelam um padrão recorrente: decisões estratégicas críticas não são apenas técnicas — são profundamente atravessadas por estados emocionais não elaborados.
Os números que não podem ser ignorados
O Brasil conta com aproximadamente 42 milhões de empreendedores ativos, segundo o Monitoramento Global de Empreendedorismo, colocando o país entre os maiores ecossistemas empreendedores do mundo. Mas esse crescimento convive com um paradoxo: ao mesmo tempo em que se estimula autonomia, criatividade e inovação, intensifica-se a exposição subjetiva a ambientes altamente instáveis, competitivos e emocionalmente invasivos.
O mito do herói invulnerável
Um dos achados mais importantes do estudo é o contraste entre a narrativa pública de sucesso e a vivência emocional real dos empreendedores. A Jornada do Herói, de Joseph Campbell, é frequentemente usada como metáfora para o empreendedorismo — mas a pesquisa mostra que muitos líderes sustentam uma imagem de força e invulnerabilidade que funciona como adaptação às exigências do mercado, enquanto internamente enfrentam sofrimento psíquico intenso.
O resultado é paradoxal: o crescimento do negócio não elimina o sofrimento — muitas vezes, o intensifica. E a pesquisa revela algo contraintuitivo: para muitos empreendedores, mais do que crescer, o ideal passa a ser poder parar, desconectar sem culpa e preservar as relações e a saúde.
| Narrativa Pública | Realidade Emocional |
|---|---|
| "Sucesso a qualquer custo" | Burnout, ansiedade e exaustão crônica |
| "O empreendedor é resiliente" | 78% não têm espaço seguro para vulnerabilidade |
| "Crescer é sempre bom" | Crescimento pode intensificar sofrimento emocional |
| "O negócio é separado da pessoa" | Não há separação entre o sujeito e o negócio que conduz |
| "Vulnerabilidade é fraqueza" | Suprimir emoções compromete criatividade e decisão |
O que é o "holding" e por que ele importa
A pesquisa se baseia na psicanálise de Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que desenvolveu o conceito de holding — uma sustentação emocional que permite ao indivíduo atravessar situações de alta pressão sem se fragmentar. Originalmente pensado para a relação mãe-bebê, o conceito se aplica de forma poderosa ao ambiente empreendedor.
Um empreendedor que não tem um espaço de holding — seja na família, na amizade, na terapia ou na própria rede de apoio — fica exposto a um estresse crônico que compromete não apenas sua saúde mental, mas também sua capacidade de tomar decisões estratégicas.
A autora do estudo desenvolveu o Método Copiloto Empreendedor, que propõe integrar tomada de decisão estratégica, desenvolvimento do negócio e sustentação emocional. A premissa é simples e poderosa: não há separação entre o negócio e o sujeito que o conduz.
Burnout: o dado que acendeu o alerta vermelho
O estudo dialoga com dados da Previdência Social que apontam crescimento de 800% no número de afastamentos por burnout em quatro anos. O Brasil atravessa uma crise de saúde mental no trabalho que já não pode ser atribuída a casos isolados. É estrutural.
Mulheres empreendedoras, que já representam quase metade dos novos empreendimentos no país, enfrentam desafios adicionais: acesso a capital, dupla ou tripla jornada e expectativas socioculturais contraditórias que favorecem estados de exaustão emocional e sentimento crônico de inadequação.
O que a psicologia tem a ver com isso
Durante muito tempo, o empreendedor foi tratado como uma figura que precisava apenas de mentoria de negócios, capital e rede de contatos. O aspecto emocional era visto como secundário — "coisa de quem não tem estômago para empreender".
O estudo de Deusa Marcon, publicado no Valor Econômico, mostra que essa visão não apenas é equivocada, como é perigosa para os negócios. A saúde mental do empreendedor não é um tema de bem-estar — é um fator determinante para a longevidade da empresa e para a qualidade das decisões estratégicas.
O psicólogo não trata apenas do sofrimento emocional. Ele pode atuar na construção desse espaço de holding que o empreendedor não encontra em nenhum outro lugar. O sigilo profissional, a escuta qualificada e a regularidade dos encontros criam um ambiente onde o empreendedor pode, finalmente, baixar a guarda sem medo das consequências.
Para empresas que desejam reter talentos e preservar a saúde de suas lideranças, oferecer acesso a acompanhamento psicológico deixa de ser um "benefício" e passa a ser estratégia de negócio.
Perguntas Frequentes
Sim. O ambiente de alta instabilidade, a pressão por resultados e o isolamento típico da liderança fazem com que empreendedores apresentem taxas mais altas de ansiedade e depressão que a média da população.
Burnout é um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse crônico no trabalho. A OMS a classifica como um fenômeno ocupacional, caracterizado por exaustão, cinismo e redução da eficácia profissional.
Sim. Decisões estratégicas são frequentemente atravessadas por emoções não elaboradas — medo, insegurança, necessidade de validação. A terapia ajuda o empreendedor a reconhecer esses padrões e tomar decisões mais conscientes.
Alguns sinais de alerta: insônia frequente, irritabilidade constante, dificuldade de concentração, dores físicas sem causa aparente, sensação de sobrecarga, isolamento social e pensamentos negativos recorrentes sobre si mesmo ou o negócio.
Oferecer acesso a acompanhamento psicológico, criar uma cultura que desestimule o excesso de trabalho, promover lideranças mais humanizadas e, acima de tudo, reduzir o estigma de que pedir ajuda é sinal de fraqueza.
Aliadas. Um empreendedor emocionalmente saudável toma decisões melhores, lidera com mais clareza e sustenta o negócio a longo prazo. Ignorar a saúde mental não protege o negócio — coloca ele em risco.
Conclusão: O negócio não se separa de quem o conduz
O estudo publicado no Valor Econômico não é apenas mais uma pesquisa sobre estresse no trabalho. Ele sinaliza uma mudança de paradigma: a saúde mental do empreendedor deixou de ser um tema de bem-estar individual e passou a ser reconhecida como condição estrutural para a sustentabilidade dos negócios.
Com 42 milhões de empreendedores no Brasil, ignorar esse dado é um erro que custa caro — em vidas humanas, em afastamentos, em decisões equivocadas e em negócios que poderiam prosperar se seus líderes tivessem o suporte emocional adequado.
Se você é empreendedor e se reconhece em algum dos sinais mencionados, saiba que não é fraqueza buscar ajuda. É, na verdade, a decisão mais estratégica que você pode tomar — para você e para o seu negócio.