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Saúde mental passa a ser condição estrutural dos negócios

TL;DR Sim, a saúde mental dos empreendedores deixou de ser tema periférico e se tornou uma condição estrutural para a sustentabilidade dos negócios. Um estudo inédito baseado em 15 anos de atuação com empreendedores mostra que 78,3% não têm um espaço seguro para compartilhar vulnerabilidades e mais de 80% relatam experiências traumáticas ao longo da jornada empreendedora.

Pedro tinha 34 anos quando abriu a própria empresa. Era o sonho da vida: ser dono do próprio negócio, construir algo com as próprias mãos, deixar um legado. Três anos depois, ele mal dormia, tinha crises de ansiedade antes de cada reunião importante e se sentia um impostor — mesmo com a empresa crescendo. Quando finalmente buscou ajuda, a primeira pergunta que fez foi: "Isso é normal? Todo empreendedor se sente assim?"

A resposta, hoje, está documentada. E os números são alarmantes.

"Ao longo dos anos, ficou evidente que a performance dos negócios está diretamente relacionada à estabilidade emocional do empreendedor."

O estudo que revela o custo invisível do empreendedorismo

Uma pesquisa publicada no artigo científico "Psicanálise Winnicottiana como pilar da jornada empreendedora: saúde mental do empreendedor como condição estrutural tanto para a sustentabilidade do negócio, quanto do ser", desenvolvido pela pesquisadora e psicanalista Deusa Marcon, escancara o que muitos empreendedores vivem em silêncio.

O estudo combina evidências empíricas acumuladas ao longo de 15 anos de atuação direta com empreendedores com uma pesquisa qualitativa realizada em 2025, analisada sob a ótica da psicanálise winnicottiana. Os dados foram publicados no Valor Econômico e revelam um padrão recorrente: decisões estratégicas críticas não são apenas técnicas — são profundamente atravessadas por estados emocionais não elaborados.

Os números que não podem ser ignorados

78,3% dos empreendedores não possuem um espaço seguro para compartilhar vulnerabilidades
61% relatam sintomas físicos associados ao risco percebido do negócio
69,6% enfrentam conflitos nas relações pessoais devido à atividade empreendedora
>80% relatam experiências traumáticas ao longo da jornada empreendedora

O Brasil conta com aproximadamente 42 milhões de empreendedores ativos, segundo o Monitoramento Global de Empreendedorismo, colocando o país entre os maiores ecossistemas empreendedores do mundo. Mas esse crescimento convive com um paradoxo: ao mesmo tempo em que se estimula autonomia, criatividade e inovação, intensifica-se a exposição subjetiva a ambientes altamente instáveis, competitivos e emocionalmente invasivos.

O mito do herói invulnerável

Um dos achados mais importantes do estudo é o contraste entre a narrativa pública de sucesso e a vivência emocional real dos empreendedores. A Jornada do Herói, de Joseph Campbell, é frequentemente usada como metáfora para o empreendedorismo — mas a pesquisa mostra que muitos líderes sustentam uma imagem de força e invulnerabilidade que funciona como adaptação às exigências do mercado, enquanto internamente enfrentam sofrimento psíquico intenso.

O resultado é paradoxal: o crescimento do negócio não elimina o sofrimento — muitas vezes, o intensifica. E a pesquisa revela algo contraintuitivo: para muitos empreendedores, mais do que crescer, o ideal passa a ser poder parar, desconectar sem culpa e preservar as relações e a saúde.

Narrativa Pública Realidade Emocional
"Sucesso a qualquer custo" Burnout, ansiedade e exaustão crônica
"O empreendedor é resiliente" 78% não têm espaço seguro para vulnerabilidade
"Crescer é sempre bom" Crescimento pode intensificar sofrimento emocional
"O negócio é separado da pessoa" Não há separação entre o sujeito e o negócio que conduz
"Vulnerabilidade é fraqueza" Suprimir emoções compromete criatividade e decisão

O que é o "holding" e por que ele importa

A pesquisa se baseia na psicanálise de Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que desenvolveu o conceito de holding — uma sustentação emocional que permite ao indivíduo atravessar situações de alta pressão sem se fragmentar. Originalmente pensado para a relação mãe-bebê, o conceito se aplica de forma poderosa ao ambiente empreendedor.

Um empreendedor que não tem um espaço de holding — seja na família, na amizade, na terapia ou na própria rede de apoio — fica exposto a um estresse crônico que compromete não apenas sua saúde mental, mas também sua capacidade de tomar decisões estratégicas.

A autora do estudo desenvolveu o Método Copiloto Empreendedor, que propõe integrar tomada de decisão estratégica, desenvolvimento do negócio e sustentação emocional. A premissa é simples e poderosa: não há separação entre o negócio e o sujeito que o conduz.

Burnout: o dado que acendeu o alerta vermelho

O estudo dialoga com dados da Previdência Social que apontam crescimento de 800% no número de afastamentos por burnout em quatro anos. O Brasil atravessa uma crise de saúde mental no trabalho que já não pode ser atribuída a casos isolados. É estrutural.

Mulheres empreendedoras, que já representam quase metade dos novos empreendimentos no país, enfrentam desafios adicionais: acesso a capital, dupla ou tripla jornada e expectativas socioculturais contraditórias que favorecem estados de exaustão emocional e sentimento crônico de inadequação.

"Mais do que um tema de bem-estar, a saúde mental se apresenta como um fator determinante para a longevidade dos negócios."

O que a psicologia tem a ver com isso

Durante muito tempo, o empreendedor foi tratado como uma figura que precisava apenas de mentoria de negócios, capital e rede de contatos. O aspecto emocional era visto como secundário — "coisa de quem não tem estômago para empreender".

O estudo de Deusa Marcon, publicado no Valor Econômico, mostra que essa visão não apenas é equivocada, como é perigosa para os negócios. A saúde mental do empreendedor não é um tema de bem-estar — é um fator determinante para a longevidade da empresa e para a qualidade das decisões estratégicas.

O psicólogo não trata apenas do sofrimento emocional. Ele pode atuar na construção desse espaço de holding que o empreendedor não encontra em nenhum outro lugar. O sigilo profissional, a escuta qualificada e a regularidade dos encontros criam um ambiente onde o empreendedor pode, finalmente, baixar a guarda sem medo das consequências.

Para empresas que desejam reter talentos e preservar a saúde de suas lideranças, oferecer acesso a acompanhamento psicológico deixa de ser um "benefício" e passa a ser estratégia de negócio.

Perguntas Frequentes

Empreendedores sofrem mais de ansiedade que a população geral?

Sim. O ambiente de alta instabilidade, a pressão por resultados e o isolamento típico da liderança fazem com que empreendedores apresentem taxas mais altas de ansiedade e depressão que a média da população.

O que é síndrome de burnout?

Burnout é um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse crônico no trabalho. A OMS a classifica como um fenômeno ocupacional, caracterizado por exaustão, cinismo e redução da eficácia profissional.

Psicoterapia pode ajudar na tomada de decisões empresariais?

Sim. Decisões estratégicas são frequentemente atravessadas por emoções não elaboradas — medo, insegurança, necessidade de validação. A terapia ajuda o empreendedor a reconhecer esses padrões e tomar decisões mais conscientes.

Como saber se preciso de ajuda psicológica?

Alguns sinais de alerta: insônia frequente, irritabilidade constante, dificuldade de concentração, dores físicas sem causa aparente, sensação de sobrecarga, isolamento social e pensamentos negativos recorrentes sobre si mesmo ou o negócio.

O que as empresas podem fazer para apoiar a saúde mental dos líderes?

Oferecer acesso a acompanhamento psicológico, criar uma cultura que desestimule o excesso de trabalho, promover lideranças mais humanizadas e, acima de tudo, reduzir o estigma de que pedir ajuda é sinal de fraqueza.

Saúde mental e produtividade são concorrentes ou aliadas?

Aliadas. Um empreendedor emocionalmente saudável toma decisões melhores, lidera com mais clareza e sustenta o negócio a longo prazo. Ignorar a saúde mental não protege o negócio — coloca ele em risco.

Conclusão: O negócio não se separa de quem o conduz

O estudo publicado no Valor Econômico não é apenas mais uma pesquisa sobre estresse no trabalho. Ele sinaliza uma mudança de paradigma: a saúde mental do empreendedor deixou de ser um tema de bem-estar individual e passou a ser reconhecida como condição estrutural para a sustentabilidade dos negócios.

Com 42 milhões de empreendedores no Brasil, ignorar esse dado é um erro que custa caro — em vidas humanas, em afastamentos, em decisões equivocadas e em negócios que poderiam prosperar se seus líderes tivessem o suporte emocional adequado.

Se você é empreendedor e se reconhece em algum dos sinais mencionados, saiba que não é fraqueza buscar ajuda. É, na verdade, a decisão mais estratégica que você pode tomar — para você e para o seu negócio.

Dra. Caroline

Dra. Caroline Campos Verde

CRP 06/201517

Psicóloga especializada em TCC. Atendimento acolhedor para adultos, com foco em ansiedade, burnout, estresse profissional e saúde mental no trabalho.

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